Epilepsia: Derrubando Mitos e Estigmas

Publicado: 23 de junho de 2011 em Artigos Sobre Neuropediatria
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A história da epilepsia é longa assim como são numerosas as crenças e superstições a ela relacionadas. Não se sabe com certeza de quando data a primeira descrição sobre crises epilépticas, mas provavelmente de 2.000 ou 3.000 anos a.C., sendo atribuída aos Sumérios.

Os romanos acreditavam que a influência dos astros celestes, em particular da lua, era de fundamental importância para determinar quem desenvolveria epilepsia, e por esse motivo, estes indivíduos na Roma Clássica eram chamados “lunáticos”. Na mesma época, os romanos acreditavam também que a epilepsia era uma doença contagiosa e que os doentes deveriam ser mantidos em locais afastados com o objetivo de proteger a população geral. Frequentemente, estas pessoas eram impedidas de entrar em templos e igrejas sob a justificativa de que poderiam “profanar e contaminar” aquele lugar santo.

Na Grécia Antiga, acreditava-se que pessoas com epilepsia eram fruto de “possessões divinas” sendo, por vezes, veneradas em templos sagrados. Nessa época os gregos referiam-se à epilepsia como “morbus sacer” (doença sagrada). Por outro lado, na Idade Média, acreditava-se que as crises epilépticas eram provocadas por possessões demoníacas ou por forças sobrenaturais malignas que subitamente se apoderavam do corpo e da mente do indivíduo, sendo a doença conhecida como “morbus demoniacus” (doença do demônio).

Foi Hipócrates (Cós, 460 a.C. – Tessália, 377 a.C.), pai da medicina, o primeiro a afirmar que a origem das crises epilépticas não mantinha nenhuma relação com possessões divinas ou demoníacas, assim como não tinha relação com qualquer crença sobrenatural. Mesmo muito contestado por seus pares na época, Hipócrates afirmou que a epilepsia era uma doença física de origem cerebral.

O termo epilepsia foi criado pelos gregos, significando ipsis literi “surpresa”, uma vez que as crises epilépticas têm como característica fundamental ocorrer sempre de forma súbita e inesperada.

Embora a epilepsia seja uma doença de ocorrência mundial, independente de sexo, raça, idade e condição social, sabidamente países em desenvolvimento (como o Brasil) apresentam incidência mais alta quando comparados aos países desenvolvidos. Dados recentes apontam incidência nos Estados Unidos e alguns países da Europa ao redor de 40 a 50 casos de epilepsia em cada 100.000 habitantes por ano. Mesmo sem dados precisos, estima-se que em países com condições sócio-econômicas semelhantes as do Brasil a incidência esteja em torno de 130 a 190 casos para cada 100.000 habitantes por ano. Estes números demonstram que a epilepsia é a mais frequente de todas as doenças neurológicas crônicas graves.

Do ponto de vista social a epilepsia é considerada uma doença de grande importância por sua elevada incidência. Embora estime-se que economicamente esta doença represente significativo impacto aos doentes e ao governo, não temos dados brasileiros confiáveis sobre os custos diretos (gastos diretamente relacionados com a doença, como medicamentos, consultas médicas, gastos hospitalares) e indiretos (redução da produtividade no trabalho, diminuição na expectativa de vida, aumento de aposentadorias precoces) relacionados a esta doença.

Convivendo diariamente com pacientes, adultos e crianças, com epilepsia percebemos que o maior problema enfrentado por estas pessoas é a falta de informações de boa qualidade. Velhas e falsas crenças a respeito da origem da doença, do diagnóstico e do tratamento permanecem até os dias atuais. A seguir vamos citar algumas das mais frequentes dúvidas que ouvimos praticamente todos os dias no consultório de neurologia.

Epilepsia é uma doença transmissível?

Absolutamente não. A epilepsia é uma doença provocada por uma disfunção elétrica no cérebro, podendo decorrer de alterações genéticas ou de lesões cerebrais ocorridas em qualquer momento da vida como, por exemplo, após traumatismos cranianos graves, meningites ou tumores cerebrais.

É comum pessoas morrerem durante uma crise epiléptica?

Não, é raro que alguém morra durante uma crise epiléptica. A maior parte dos indivíduos que morre nesta circunstância não morre devido diretamente à crise e sim pelas complicações relacionadas a ela como, por exemplo, no caso de acidentes com queda de altura, atropelamento, afogamento etc. É claro que crises epilépticas muito prolongadas, particularmente aquelas com duração superior a 30 minutos, podem provocar danos cerebrais graves e irreversíveis, mas mesmo nestes casos é pouco frequente que cheguem a provocar a morte.

Pessoas em crise convulsiva podem “engolir a língua” e se asfixiar?

Este é provavelmente um dos principais mitos relacionados à epilepsia. A língua é um músculo de nosso corpo como outro qualquer e, assim como os demais músculos se contraem durante uma convulsão, o mesmo vai ocorrer com a língua dando a impressão que o paciente está “engolindo a língua”. Contudo, este músculo está firmemente preso ao assoalho da boca e não se soltará jamais durante uma crise. Por esse motivo, é absolutamente contra-indicado puxar a língua do paciente para fora durante uma crise, assim como também não se deve jamais introduzir qualquer objeto e nem água na boca do paciente neste momento.

O que é disritmia cerebral?

Este termo foi introduzido entre as décadas de 1920 e 1930 na Europa e nos Estados Unidos como sinônimo de epilepsia, com o objetivo de evitar o uso do termo “epilepsia”, pois naquela época esta era considerada uma doença estigmatizante. Contudo, com o passar dos anos, o termo “disritmia cerebral” foi se descaracterizando e passou-se a utilizá-lo como referência a uma série de outras doenças que não a epilepsia. Atualmente, o termo “disritmia cerebral” perdeu completamente seu sentido original, não devendo mais ser utilizado.

Pessoas com epilepsia podem fazer exercícios?

Sim, pessoas portadoras de epilepsia com suas crises controladas podem realizar exercícios físicos de qualquer natureza. As exceções são os esportes de altura (asa delta, alpinismo, montanhismo, pára-quedismo, ginástica olímpica) e os esportes aquáticos em ambientes abertos (rios, lagos, mar) devido os riscos evidentes de se ter uma crise convulsiva nestas circunstâncias. Natação em piscina e sob a supervisão de alguém apto a socorrer se necessário é liberada para crianças e adultos epilépticos. Crianças com epilepsia controlada podem e devem ser estimuladas a participar das aulas regulares de educação física nas escolas.

Gardenal deve ser evitado, pois é um medicamento “muito forte”?

Não existem medicamentos para epilepsia fortes e outros fracos. Para cada tipo de crise epiléptica há um medicamento mais indicado. Quanto ao Gardenal, ele continua sendo a medicação para epilepsia mais utilizada em todo o mundo. Por ser um medicamento desenvolvido há muitos anos, suas propriedades farmacológicas e seus efeitos colaterais são bem conhecidos por todos os médicos o que aumenta muito a segurança de seu uso. Além de ser um medicamento altamente eficaz no controle das convulsões, o Gardenal tem baixo custo, o que é um fator muito importante nos países em desenvolvimento como o Brasil. Nas crianças pequenas, sobretudo naquelas com menos de 1 ano de idade, o Gardenal é, na grande maioria das vezes, o medicamento mais indicado para o tratamento das convulsões. Em crianças com crises convulsivas febris o Gardenal continua sendo a medicação antiepiléptica mais utilizada.

Pessoas com epilepsia sempre tem algum problema mental?

Não, a epilepsia não tem necessariamente associação com problemas mentais, psiquiátricos ou comprometimento da inteligência. É claro alguns indivíduos, principalmente as crianças com doenças neurológicas graves como a paralisia cerebral e malformações cerebrais extensas, podem ter associadamente epilepsia e desordens psiquiátricas, mentais e rebaixamento intelectual. Mas essa não é a regra, pois a maior parte dos indivíduos epilépticos são mentalmente normais.

Pessoas com epilepsia podem dirigir?

Em muitos países do mundo, inclusive no Brasil, já há regulamentação a respeito desse assunto. Embora ainda seja tema polêmico, alguns critérios devem ser considerados no momento de conceder a habilitação para condução de veículos nestes casos. Inicialmente, é importante que as crises epilépticas estejam plenamente controladas, que o paciente esteja fazendo uso regular da medicação antiepiléptica e que haja um parecer favorável do médico que assiste o paciente. Estatísticas internacionais demonstram que, obedecendo a estes critérios, o risco de um indivíduo epiléptico envolver-se em um acidente com veículo automotor devido uma crise convulsiva é muito pequeno. Casos especiais devem ser analisados individualmente como, por exemplo, a concessão da habilitação para conduzir veículos não considerados de passeio, como máquinas de maior porte e veículos de transporte de passageiros. A habilitação para motoristas profissionais também constitui um caso especial, sendo proibida em muitos países.

Por fim, é muito importante que indivíduos com epilepsia e seus familiares informem-se o máximo possível a respeito da doença. A informação de boa qualidade, além de facilitar a compreensão da doença, diminui o preconceito.

Dr. Paulo Breno Noronha Liberalesso

comentários
  1. eu lyle tiver esse problemas de saúde no coração era um buraquinho no coração e veio o epilepsia muito celeração atual aos 14 de idade como copara esse emoção que eu tive na infancia
    os meus pais chamarão o dr.paulo para ver que essa menina de 14 anos e teve cura sim só nós os remédios forte que parou a epilepsia.

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